Todos nós temos experiências com a leitura, seja da infância com os pais contando ou lendo uma história; da adolescência em que fizemos leituras obrigatórias e outras prazerosas; seja da vida adulta no nosso trabalho e no lazer. Cada uma dessas experiências contribui para o leitor que somos hoje; são todas, portanto, importantes, porém nem sempre lembramos delas. Ao ler recordações de leitura, podemos ter essas vivências acordadas, rememoradas e refletidas, o que contribui para ampliar nossa consciência enquanto sujeitos do conhecimento.
Nossos depoimentos sobre leitura:
Roseli Ritter
A vida é cheia de gostos e predileções, por isso quando tentamos algo novo o resultado pode ser a decepção ou surpresa.
Alguns títulos da
Série Vaga lume.
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Tinha 16 anos, 2º colegial, já havia feito muitas viagens pelo mundo dos livros. Livros de aventura, de mistério e de ação (Sidney Sheldon, Agatha Christie e muitos da Série Vaga Lume). Literatura brasileira? O que é isso? Hum, tinha lido A Moreninha na 7ª série, foi interessante, mas meloso demais. Agora o desafio era Vidas Secas. Que tédio, que marasmo, tudo era tão quente, devagar, desanimador, seco. Não consegui ler o livro inteiro (que foi achado numa prateleira por acaso e peguei porque a professora já tinha falado aquele nome várias vezes).
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| Capa da obra Vidas Secas, Graciliano Ramos. |
Três anos depois, na faculdade, após outras leituras e experiências, Vidas Secas cruzou novamente meu caminho, mas nosso encontro foi diferente: cada palavra tinha novo sentido e percebia que o ritmo lento da leitura era proposital, novo, fascinante; que cada palavra era cuidadosamente escolhida. E esse novo encontro me fez gostar ainda mais da nossa língua e me deixou curiosa e preparada para mergulhar em outros livros de nossa literatura. Também aprendi que nem sempre estamos prontos para certos encontros.
O depoimento de Roseli nos faz pensar que para alguns livros
temos que ter um certo amadurecimento como leitores. Cada vez que fazemos uma
releitura nossa interpretação é diferente. Com o passar do tempo novas experiências
foram vividas e redescobrimos novos significados.
Agora vamos ao depoimento da
Michelle, relato de como a leitura e a escrita lhe ajudou a desenvolver a sua visão
política social dos fatos em plenos anos 80, final da ditadura militar no
Brasil.
Olá colegas,
Aqui segue minhas lembranças.
Essa atividade é realmente algo incrível, pois trás a tona vários fatos da minha história que achava ter esquecido. Fui alfabetizada em casa por minhas primas e fui para a pré-escola com cinco anos, muito cedo para a época e já sabendo ler e escrever, porém meus pais não tinham o hábito de ler e não me incentivavam a ler.
Capa da obra Trapezunga
e Terreirão,
Chico Alencar.
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A primeira experiência com o mundo da leitura e escrita foi com a cartilha caminho suave, lembro-me que gostava muito das histórias.Mas tarde já no fundamental II, lembro-me de um livro para didático chamado Trapezunga e o Terreirão, uma fábula sobre a abolição de Chico Alencar, que me marcou bastante, pois, me fez viajar pela primeira vez em uma história e também trocar as sensações que tive com meus amigos da escola. A história era sobre galinhas e se passava em um terreiro, mas, eu consegui ver claramente a mensagem sobre a luta pela abolição dos escravos no Brasil... Aqui talvez tenha aflorado minha visão política social dos fatos.
Tive a sorte de ter tido professores que nos ensinaram a não aceitar tudo que estava escrito e sempre ir atrás de algo mais, de termos senso crítico. E reescrever os fatos de outro ponto de vista. Era o final do regime militar.
Assim, outro fato que me marcou foi uma redação sobre a copa do mundo de 1986 (eu estava na sexta série), onde eu criticava o nacionalismo exagerado na época da copa do mundo e o descaso com os problemas sociais nos outros três anos e onze meses que se seguiam, tirei nota dez e fiquei imensamente feliz, e meu lado socialista se consolidava naquele momento.
Gosto muito de escrever, porém, tenho dificuldade em sintetizar as ideias, talvez por achar que estou conversando com alguém quando escrevo.
Para mim a leitura sempre esteve ligada a apropriação de conhecimento e eu sou ávida por conhecimento.
Michelle sempre acreditou, desde
muito jovem, que a Leitura esta ligada a apropriação de conhecimento. No nosso
próximo depoimento, Ivanete nos relata que também começou muito cedo a sua experiência
com leitura e escrita.
Ivanete Pereira Santos
Olá pessoal, minha experiencia com a leitura e a escrita começou cedo pois sempre fui muito ansiosa e tudo que eu via perguntava e queria saber do que se tratava.
Nasci em uma família humilde, meus pais não eram alfabetizados e minha mãe fez de tudo para que pudéssemos estudar ela dizia que não queria que fossemos como ela ao contrario de meu pai que dizia que mulher não precisava estudar.
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Capa da Cartilha
Caminho Suave,
Branca Alves de Lima.
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Meus irmãos mais velhos apesar de ter estudado até a quarta série (antiga) me ensinaram a ler e escrever, graças a eles quando comecei a primeira série do ensino fundamental aos sete anos não encontrei muitas dificuldades para acompanhar a Cartilha Caminho Suave, foi com a mesma que comecei a aprimorar os meus conhecimentos. Sempre gostei muito de ler e escrever mas para mim foi muito difícil ir contra a opinião de meu pai mas mesmo assim nunca desisti pois meu sonho era ser professora.
Aos 14 anos trabalhava e estudava mas, só consegui realizar meu sonho com quase trinta anos porque ganhava pouco e não tinha ninguém para me ajudar, hoje sou professora de matemática e me sinto feliz e realizada afinal este era o meu sonho.
Ivanete teve perseverança e
manteve o objetivo de estudar e realizar o seu grande sonho. Já Rosalva nos
conta como na sua própria casa, ali ao alcance de suas mãos, havia um mundo mágico de livros e revistas.
Rosalva Teixeira Barro
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Histórias em Quadrinhos
Edição Maravilhosa Nº 65
Ben-hur ,Editora Ebal.
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Os livros sempre me fascinaram, desde pequena, quando aprendi a ler e escrever. Nesta época, descobri numa escrivaninha em casa o mundo mágico dos livros e revistas. Naquela época as revistas "Edições Maravilhosas" em quadrinhos (branco e preto) traziam histórias de "Ben Hur","O Menino do Engenho", "Doidinho", "Os Dez Mandamentos" e outras histórias baseadas em livros ou filmes da época.
| Vista interna da publicação. |
Descobri que aquela escrivaninha guardava as revistas e livros de quando meu pai, solteiro, possuía uma banca de revistas na cidade. Quando a fechou, livros e revistas que sobraram foram colocados na escrivaninha. Toda noite ia até ela e meu mundo se transformava. Aquela escrivaninha me apresentava leitura de todos os gostos, como cardápios literários prontos para serem devorados. "Devorava" uma leitura após a outra, viajava pelas histórias, conhecia pessoas com ideias interessantes, ficava alegre, triste, pensativa, participava de uma verdadeira ginástica para a criatividade e a imaginação. Os livros me empurraram para a vida com uma certeza de que eu poderia modificar a minha história e fazer a diferença neste mundo.
As Histórias em Quadrinhos
melhoram as habilidades de leitura, compreensão e imaginação. Como foi com a
Rosalva, a Katia teve o gosto pela leitura despertado com a ajuda dessas
revistas também, mas só depois de uma resistência inicial...
Katia Gonçalves
Olá Colegas...
Fui alfabetizada no primeiro ano do Ensino Fundamental. Era 1981 e me lembro perfeitamente de chegar à escola e ser recepcionada por Dona Rosa, minha primeira e inesquecível professora. Foi ela que me ensinou as primeiras letras, números e sílabas...Ah, Meu Deus! Como as sílabas eram difíceis...
Entrei na escola sem nenhum conhecimento na nossa língua. De família humilde, meus pais tinham que trabalhar muito para garantir o nosso sustento. Eu ficava com minha avó, senhora maravilhosa e de valores morais e éticos que são exemplos para mim até hoje. Mas ela era analfabeta e não tinha nenhuma contribuição leitora ou escritora a me fornecer.
Sem a devida atenção e dedicação anterior dos meus familiares, as dificuldades foram aparecendo. Em uma das primeiras atividades da minha Cartilha Caminho Suave (livro que foi usado para a minha alfabetização), tive muita dificuldade para ler um pequeno texto em uma chamada oral. Era a primeira vez que estava juntando letrinhas e as temidas sílabas estavam me vencendo! Fiquei muito triste e até chorei na sala. Mas com toda paciência e dedicação ela contornou aquela situação e logo consegui ler esse e todos os outros textos.
Livro O Pequeno Polegar,
Charles Perrault.
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Por um bom tempo, para mim, leitura era uma "coisa de escola", que tinha que ser feito na sala de aula e com a professora. Mas, quando fiz nove anos, meus pais fizeram uma festinha simples de aniversário e, entre as bonecas e brinquedos, apareceu um livro. Livro?!? Pensei eu... Como alguém tem coragem de dar um livro a alguém? Mas que absurdo!
Era um livro do Pequeno Polegar, que depois de uma resistência inicial, foi lido por mim e, para minha surpresa, achei aquela história fascinante: um menino pequenino e tão esperto e corajoso ao mesmo tempo. Cada vez que eu relia o livro, ficava imaginando maneiras diferentes para que ele conseguisse vencer as dificuldades. Naquele momento percebi: Ler era muito bom...
Revista
Superinteressante,
Editora Abril.
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A partir do livro Pequeno Polegar, o interesse à leitura floresceu, e o próximo passo foram as Histórias em Quadrinhos, principalmente de super- heróis e ficção científica. A Ciência começava a me interessar. Os questionamentos começavam... Em busca de respostas, logo me interessei pela Revista Superinteressante e livros sobre Biologia e Química (a minha paixão!).
Imaginem se eu não tivesse lido aquele livro do Pequeno Polegar, onde estaria agora?
Gostaram? Será que temos algo em comum?
Conte-nos suas experiências, recordar faz bem à mente e a alma e desperta as emoções!
Venham participar conosco!
Um grande abraço.



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