segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nossos depoimentos sobre leitura...

   Todos nós temos experiências com a leitura, seja da infância com os pais contando ou lendo uma história; da adolescência em que fizemos leituras obrigatórias e outras prazerosas; seja da vida adulta no nosso trabalho e no lazer. Cada uma dessas experiências contribui para o leitor que somos hoje; são todas, portanto, importantes, porém nem sempre lembramos delas. Ao ler recordações de leitura, podemos ter essas vivências acordadas, rememoradas e refletidas, o que contribui para ampliar nossa consciência enquanto sujeitos do conhecimento.

   Nossos depoimentos sobre leitura:

Roseli Ritter


    A vida é cheia de gostos e predileções, por isso quando tentamos algo novo o resultado pode ser a decepção ou surpresa.


Alguns títulos da 
Série Vaga lume.
    Tinha 16 anos, 2º colegial, já havia feito muitas viagens pelo mundo dos livros. Livros de aventura, de mistério e de ação (Sidney Sheldon, Agatha Christie e muitos da Série Vaga Lume). Literatura brasileira? O que é isso? Hum, tinha lido A Moreninha na 7ª série, foi interessante, mas meloso demais. Agora o desafio era Vidas Secas. Que tédio, que marasmo, tudo era tão quente, devagar, desanimador, seco. Não consegui ler o livro inteiro (que foi achado numa prateleira por acaso e peguei porque a professora já tinha falado aquele nome várias vezes).

Capa da obra Vidas Secas,
Graciliano Ramos. 

   Três anos depois, na faculdade, após outras leituras e experiências, Vidas Secas cruzou novamente meu caminho, mas nosso encontro foi diferente: cada palavra tinha novo sentido e percebia que o ritmo lento da leitura era proposital, novo, fascinante; que cada palavra era cuidadosamente escolhida. E esse novo encontro me fez gostar ainda mais da nossa língua e me deixou curiosa e preparada para mergulhar em outros livros de nossa literatura. Também aprendi que nem sempre estamos prontos para certos encontros.


    Como disse Heráclito de Efeso "Nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros".




   O depoimento de Roseli nos faz pensar que para alguns livros temos que ter um certo amadurecimento como leitores. Cada vez que fazemos uma releitura nossa interpretação é diferente. Com o passar do tempo novas experiências foram vividas e redescobrimos novos significados.
   
   Agora vamos ao depoimento da Michelle, relato de como a leitura e a escrita lhe ajudou a desenvolver a sua visão política social dos fatos em plenos anos 80, final da ditadura militar no Brasil.
  
Michelle Reis

    Olá colegas,
    Aqui segue minhas lembranças.



   Essa atividade é realmente algo incrível, pois trás a tona vários fatos da minha história que achava ter esquecido. Fui alfabetizada em casa por minhas primas e fui para a pré-escola com cinco anos, muito cedo para a época e já sabendo ler e escrever, porém meus pais não tinham o hábito de ler e não me incentivavam a ler.


Capa da obra Trapezunga 
e Terreirão, 
Chico Alencar.

   A primeira experiência com o mundo da leitura e escrita foi com a cartilha caminho suave, lembro-me que gostava muito das histórias.Mas tarde já no fundamental II, lembro-me de um livro para didático chamado Trapezunga e o Terreirão, uma fábula sobre a abolição de Chico Alencar, que me marcou bastante, pois, me fez viajar pela primeira vez em uma história e também trocar as sensações que tive com meus amigos da escola. A história era sobre galinhas e se passava em um terreiro, mas, eu consegui ver claramente a mensagem sobre a luta pela abolição dos escravos no Brasil... Aqui talvez tenha aflorado minha visão política social dos fatos. 



  Tive a sorte de ter tido professores que nos ensinaram a não aceitar tudo que estava escrito e sempre ir atrás de algo mais, de termos senso crítico. E reescrever os fatos de outro ponto de vista. Era o final do regime militar.
 
    Assim, outro fato que me marcou foi uma redação sobre a copa do mundo de 1986 (eu estava na sexta série), onde eu criticava o nacionalismo exagerado na época da copa do mundo e o descaso com os problemas sociais nos outros três anos e onze meses que se seguiam, tirei nota dez e fiquei imensamente feliz, e meu lado socialista se consolidava naquele momento. 

   Gosto muito de escrever, porém, tenho dificuldade em sintetizar as ideias, talvez por achar que estou conversando com alguém quando escrevo. 

   Para mim a leitura sempre esteve ligada a apropriação de conhecimento e eu sou ávida por conhecimento.



   Michelle sempre acreditou, desde muito jovem, que a Leitura esta ligada a apropriação de conhecimento. No nosso próximo depoimento, Ivanete nos relata que também começou muito cedo a sua experiência com leitura e escrita.

Ivanete Pereira Santos


   Olá pessoal, minha experiencia com a leitura e a escrita começou cedo pois sempre fui muito ansiosa e tudo que eu via perguntava e queria saber do que se tratava.
   
   Nasci em uma família humilde, meus pais não eram alfabetizados e minha mãe fez de tudo para que pudéssemos estudar ela dizia que não queria que fossemos como ela ao contrario de meu pai que dizia que mulher não precisava estudar. 

Capa da Cartilha
Caminho Suave,
Branca Alves de Lima.
   Meus irmãos mais velhos apesar de ter estudado até a quarta série (antiga) me ensinaram a ler e escrever, graças a eles quando comecei a primeira série do ensino fundamental aos sete anos não encontrei muitas dificuldades para acompanhar a Cartilha Caminho Suave, foi com a mesma que comecei a aprimorar os meus conhecimentos. Sempre gostei muito de ler e escrever mas para mim foi muito difícil ir contra a opinião de meu pai mas mesmo assim nunca desisti pois meu sonho era ser professora.

   Aos 14 anos trabalhava e estudava mas, só consegui realizar meu sonho com quase trinta anos porque ganhava pouco e não tinha ninguém para me ajudar, hoje sou professora de matemática e me sinto feliz e realizada afinal este era o meu sonho.



   Ivanete teve perseverança e manteve o objetivo de estudar e realizar o seu grande sonho. Já Rosalva nos conta como na sua própria casa, ali ao alcance de suas mãos,  havia um mundo mágico de livros e revistas.

Rosalva Teixeira Barro
   
Histórias em Quadrinhos
Edição Maravilhosa Nº 65 
Ben-hur ,Editora Ebal.
   Os livros sempre me fascinaram, desde pequena, quando aprendi a ler e escrever. Nesta época, descobri numa escrivaninha em casa o mundo mágico dos livros e revistas. Naquela época as revistas "Edições Maravilhosas" em quadrinhos (branco e preto) traziam histórias de "Ben Hur","O Menino do Engenho", "Doidinho", "Os Dez Mandamentos" e outras histórias baseadas em livros ou filmes da época. 

Vista interna da publicação.

 Descobri que aquela escrivaninha guardava as revistas e livros de quando meu pai, solteiro, possuía uma banca de revistas na cidade. Quando a fechou, livros e revistas que sobraram foram colocados na escrivaninha. Toda noite ia até ela e meu mundo se transformava. Aquela escrivaninha me apresentava leitura de todos os gostos, como cardápios literários prontos para serem devorados. "Devorava" uma leitura após a outra, viajava pelas histórias, conhecia pessoas com ideias interessantes, ficava alegre, triste, pensativa, participava de uma verdadeira ginástica para a criatividade e a imaginação. Os livros me empurraram para a vida com uma certeza de que eu poderia modificar a minha história e fazer a diferença neste mundo.




  As Histórias em Quadrinhos melhoram as habilidades de leitura, compreensão e imaginação. Como foi com a Rosalva, a Katia teve o gosto pela leitura despertado com a ajuda dessas revistas também, mas só depois de uma resistência inicial...


Katia Gonçalves



    Olá Colegas...



   Fui alfabetizada no primeiro ano do Ensino Fundamental. Era 1981 e me lembro perfeitamente de chegar à escola e ser recepcionada por Dona Rosa, minha primeira e inesquecível professora. Foi ela que me ensinou as primeiras letras, números e sílabas...Ah, Meu Deus! Como as sílabas eram difíceis...

   Entrei na escola sem nenhum conhecimento na nossa língua. De família humilde, meus pais tinham que trabalhar muito para garantir o nosso sustento. Eu ficava com minha avó, senhora maravilhosa e de valores morais e éticos que são exemplos para mim até hoje. Mas ela era analfabeta e não tinha nenhuma contribuição leitora ou escritora a me fornecer. 

  Sem a devida atenção e dedicação anterior dos meus familiares, as dificuldades foram aparecendo. Em uma das primeiras atividades da minha Cartilha Caminho Suave (livro que foi usado para a minha alfabetização), tive muita dificuldade para ler um pequeno texto em uma chamada oral. Era a primeira vez que estava juntando letrinhas e as temidas sílabas estavam me vencendo! Fiquei muito triste e até chorei na sala. Mas com toda paciência e dedicação ela contornou aquela situação e logo consegui ler esse e todos os outros textos.

Livro O Pequeno Polegar,
Charles Perrault.
    Por um bom tempo, para mim, leitura era uma "coisa de escola", que tinha que ser feito na sala de aula e com a professora. Mas, quando fiz nove anos, meus pais fizeram uma festinha simples de aniversário e, entre as bonecas e brinquedos, apareceu um livro. Livro?!? Pensei eu... Como alguém tem coragem de dar um livro a alguém? Mas que absurdo!

   Era um livro do Pequeno Polegar, que depois de uma resistência inicial, foi lido por mim e, para minha surpresa, achei aquela história fascinante: um menino pequenino e tão esperto e corajoso ao mesmo tempo. Cada vez que eu relia o livro, ficava imaginando maneiras diferentes para que ele conseguisse vencer as dificuldades. Naquele momento percebi: Ler era muito bom...

Revista
Superinteressante,
Editora Abril.
   A partir do livro Pequeno Polegar, o interesse à leitura floresceu, e o próximo passo foram as Histórias em Quadrinhos, principalmente de super- heróis e ficção científica. A Ciência começava a me interessar. Os questionamentos começavam... Em busca de respostas, logo me interessei pela Revista Superinteressante e livros sobre Biologia e Química (a minha paixão!).

   Imaginem se eu não tivesse lido aquele livro do Pequeno Polegar, onde estaria agora?








Gostaram? Será que temos algo em comum?
Conte-nos suas experiências, recordar faz bem à mente e a alma e desperta as emoções!
Venham participar conosco!
Um grande abraço.





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